“Olhos abertos. Acordou de súbito com uma inquietação que o fazia virar para todos os lados na cama, em uma velocidade que o cobertor não acompanhava. Pela janela, a lua e seus tantos pontos brilhosos pareciam oblívios à movimentação sobre o colchão. O vento sussurrava o convite de abrir as cortinas. Ele se sentou na cama e olhou para fora. Lá estava. Lá. No alto do rochedo de onde as ondas pareciam pequenininhas de tão lá embaixo. Tão perto e tão longe. Quando se deu conta, viu sua mão girar a maçaneta e saiu correndo para encontrá-la. Saiu assim, sem se arrumar, como estava, meio sem vestir coisa nenhuma. E correu mesmo, escalou todo o rochedo na maior velocidade cambaleante de quem não acredita estar se aproximando do alvo. O vestido dela acompanhava o cabelo que dançava ao luar. Suas pernas não se mexiam, mas todo o resto parecia dançar. Imóvel e bailante. Ele corria sem fazer barulho, para fazer surpresa. O suor era frio com a brisa noturna e a luz gelada de uma lua tão apática. Foi chegando e diminuiu o passo um pouco e depois mais um pouco. Parou. Sorrindo, mas parado. Não sabia o que falar, não era um momento para palavras. Ela tinha a cabeça mirando o céu e as estrelas caíam serelepemente de seu cabelo. Ele se abaixou para pegá-las, as juntou todas, uma por uma. Ao se levantar, ela não mais estava. Não lá. A procurou virando o pescoço, a procurou mexendo os pés para outros lados. Achou mais uma ou outra estrela e seguiu o rastro. Andou um pouco e, ao olhar pra trás, a encontrou no mesmo lugar de antes. Voltou curioso, novamente em silêncio, enquanto carregava suas estrelas agitadas que insistiam em tentar fugir de seus braços. Parou bem atrás dela e estendeu os braços para mostrar-lhe o que achou. Ela se virou e os olhos dele caíram nos dela. Tão quietos. Ausentes, como a lua. Não olhava para as estrelas, não olhava seu sorriso. Não olhava nada. Nem piscava. Sua cegueira foi como uma bomba em seu estômago e ele, sem perceber, mergulhou naqueles grandes olhos negros e inertes. Caiu sem rumo, caiu sem fim. As estrelas o rodeavam como se zombassem daquela situação em queda livre. O ar se abria gelado pro corpo dele passar. Sem pára-quedas, sem asas, só a gravidade que o fazia temer e desejar o solo iminente. Sem conseguir entender direito o que acontecia, sentiu todo o corpo se chocar contra o chão duro ao lado da cama, com o cobertor ainda preso aos seus pés. Se levantou e notou o deserto que rachava embaixo dele, com todos os tons de cinza que sua vida em preto e branco lhe dava. Lá estava ela novamente. Não lá, mas logo ali. Ainda tão cega, tão desavisada de sua existência. Tão próxima. Correu novamente, tinha que lhe dizer o quanto lhe amava, o quanto não conseguia pensar em nada que não fosse em par. Se ela não enxergasse, o ouviria. Ela não poderia ser também surda, não, isso não. E se fosse, que ela o conhecesse por tato, pelos lábios, por abraços eternos com olfato e paladar no pescoço. Que fizessem algum sentido juntos. Corria, corria. Os cinzas se amarelavam enquanto as estrelas – aquelas mesmas – corriam atrás dele, às vezes o passando provocativamente, às vezes lhe beijando a face ainda suada. Quanto mais corria, mais o chão se rachava em pedrinhas, como se o deserto fosse uma enorme esteira, mais uma peça desencaixada que todas as circunstâncias pregavam: Quanto mais se movia, mais longe ela ficava. Era triste, tudo. Corria como se conhecesse seu destino, sua condenação. Só aceitaria tal sentença experimentando-a, então saltava – já que descobriu que saltando se deslocava melhor. Saltos largos, de pernas ora juntas, ora desconexas. Pulou para perto dela, com as estrelas ansiosas para ver o que aconteceria. A puxou pelo ombro e, quando ela se virou, tinha em suas mãos aquela massa carnuda que avermelhava o amarelado cinza. Sentiu o vento lhe entrar o peito, olhou para baixo e descobriu o buraco em seu tórax que vazava mais daquele vermelho. Via os batimentos nas mãos dela. Cada vez mais fortes, de pouco em pouco, mas cada vez mais constantes. A olhou nos olhos sem vida e sentiu um aperto maior. Era a dor que ele queria, porque era tudo o que lhe tinha a oferecer: Ela segurava aquele coração firmemente, com as pulsações pulando por entre seus dedos que piscavam o que as pálpebras se recusavam. Ele previu o que iria acontecer, tentou esboçar um grito. Em vão. De tão forte que segurava, aquela carne toda explodiu em estrelas numa noite gelada enquanto ele caía. Caía, queda livre com as estrelas ao redor dançando e rindo do ar que preenchia o vazio no peito. Ar, muito ar, de uma só vez, mas não havia liberdade, nem catarse: era uma queda sufocante e claustrofóbica. Preso, se sentia preso. Não mexia os membros e de repente nem caía mais, só se enrolava cada vez mais no cobertor. Olhos abertos. Se mexia inquietamente, na dicotomia de amá-la com todas as forças desejando odiá-la fortemente; No medo de dormir e sonhar com ela, no desejo de vê-la para sempre ao seu lado. Sentiu o vento pela janela, viu a maçaneta e correu para o alto. Não havia ninguém lá, nem a lua. Todo o ódio da situação brigava por espaço com o amor que sofreria o quanto fosse por alguém que não merecia. Corria determinadamente, sabendo que se não fizesse agora, nunca mais faria. Escalou com força o rochedo, tentando se desvencilhar das estrelas que o atrapalhavam. Correu para chegar lá em cima e não parou de correr, nem quando viu as ondas pequenininhas lá embaixo. Ele agora as via cada vez mais perto, enquanto todo aquele ar batia em cada centímetro do seu corpo. Não veria mais os olhos inertes, não repararia na ausência da lua, não teria que apostar corrida com as estrelas pra ver quem chegaria primeiro no mar. Era um último mergulho, a última queda. Ele não sentiu o mar bater, porque ela acordou assustada na iminência do impacto. Abriu os olhos e piscou. Limpou a saliva do canto dos lábios, ajeitou os longos cabelos que lhe cobriam a face. Sentou na cama, colocou os óculos e olhou a lua com todas suas estrelas que sorriam para a menina de olhos tão grandes que parecia lhes perguntar se ainda seria verdadeiramente amada.”
- Inspirado livremente em Sleep to dream her, da Dave Matthews Band